23 setembro 2005

Cai nódoa no José Cid

Cai neve em Nova Iorque
Por José Cid

A neve cai tapando as ruas
Num manto corroído cor marfim
Eu sigo só na multidão
Para descobrir o homem que há em mim.

Deixei para trás a vida cheia de loucura
Fechei a porta onde não mais quero entrar.
Ando ao acaso pelas ruas da cidade
Assobiando, mãos nos bolsos a sonhar.

Cai neve em Nova Iorque
Há sol no meu país
Faz-me falta Lisboa
Para me sentir feliz

Não há mais pôr-do-sol
Em Sunset Boulevard
Cai neve em Nova Iorque
Ninguém vai-me encontrar.

E foi assim que na 42nd Street
Alguém me chama e oferece um cigarrinho.
Muito obrigado, amigo, não
Não vou fumar
Em Lisboa deixei esse caminho.
Deixei para trás a vida cheia de loucura
Fechei a porta onde não mais quero entrar.

[refrão]

Se eu fosse escrever uma letra sobre uma cidade que não conhecesse e onde nunca tivesse estado, eu pelo menos consultaria um mapa dessa cidade.

Nova Iorque, caro José Cid, não tem nenhuma Sunset Boulevard.

A Sunset Boulevard é a cinta mais conhecida da cidade de Los Angeles. Precisamente a 4.685 km de Nova Iorque, logo na costa oposta dos Estados Unidos.

Com 32 quilómetros, a Sunset Boulevard tem início na baixa de Los Angeles, atravessa Hollywood, Beverly Hills, Bel-Air, Santa Monica e vai terminar perto da praia de Malibu, voltada para o Oceano Pacífico, o que terá inspirado o seu nome de pôr-do-sol.

A cidade de Los Angeles é conhecida pelo seu bom tempo durante todo o ano, pelo que a frase «já não há pôr-do-sol em Sunset Boulevard» nunca faria sentido, mesmo que se interpretasse aqueles versos como uma comparação da cidade de Nova Iorque com a cidade de LA.

Mas a incompetência não se limita à toponímia. E não vou implicar com o facto de não ser fácil, ou pelo menos agradável, assobiar num dia de temperatura negativa e ar seco necessários para a queda da neve.

A versão discográfica de «Cai neve em Nova Iorque», música originalmente concorrente do Festival RTP da Canção de 1988 – que se distingue desta versão pelo verso «Faz-me falta um fadinho» –, começa com um som de biblioteca de trânsito urbano sob chuva que, como quem já esteve em Nova Iorque sabe, não tem nada a ver com o som distinto do tráfego automóvel naquela cidade. Muito provavelmente resultado da acústica das ruas e dos edifícios, e pelo facto dos sons das buzinas dos carros estarem limitadas a uma amplitude de frequência muito reduzida, há uma sonoridade ambiente distintamente nova-iorquina.

A nível gramatical, o verso «ninguém vai-me encontrar» sofre de ênclise. A gramática do português europeu obriga, como podemos ler neste trabalho científico da Universidade de Campinas, ao pronome pessoal proclítico: «ninguém me vai encontrar» seria a redacção correcta daquele verso.

Também não se diz «fechei a porta onde não mais quero entrar», pois a porta não é um local, mas «fechei a porta por onde não mais quero entrar», com o pronome a designar a porta como um meio e não um destino.

Recomendo então ao José Cid, além de uma consulta no urologista, uma viagem aos Estados Unidos que inclua pelo menos aquelas duas cidades, e a aquisição de uma gramática de língua portuguesa para ler no avião.

Ricardo da Costa Pinho


(retirado do blog Ensaio Geral, http://costapinho.typepad.com/, após a sugestão do autor do texto.)
(apresentamos este post para mostrar que o Cidmania também é cultura. Obrigado Ricardo por seres fã do Blog e do Cid. Contamos com mais colaborações tuas.)

Comments:
Mas o Cid sabe o q diz e se o diz assim é por alguma razão!n há q questionar o pq das referencias q n tem nada a ver...ele lá deve saber do q esta a falar!por isso Mestre Cid n merece contestação!Bom!
 
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